Novos estudos
revelam que ela Combate doenças como Diabetes e hipertensão e até ajuda a
emagrecer. O problema é que está em quantidade insuficiente em metade da
população mundial
Mônica Tarantino
e Monique Oliveira
Os livros didáticos disponíveis atualmente ensinam que a vitamina D é
essencial na formação dos ossos
e dentes. Mas esses textos precisarão ser
reformulados para acrescentar uma longa lista de benefícios descobertos
recentemente, que revelam que a substância faz muito mais pelo organismo do que
se imaginava. Ela ajuda a emagrecer, fortalece o sistema de defesa do
organismo, auxilia na prevenção e tratamento de doenças como a diabetes e a hipertensão
e está associada a uma vida mais longa – para falar somente de alguns de seus
efeitos positivos. Por essa razão, a vitamina tornou-se a mais nova queridinha
dos médicos em todo o planeta. Muitos já estão solicitando a seus pacientes que
meçam sua concentração no corpo e façam sua reposição se assim for necessário.
Um dos achados mais reveladores – e que ajuda a
sustentar a nova atitude dos médicos – surgiu de um trabalho de cientistas da
Universidade de Oxford, na Inglaterra. Eles sequenciaram o código genético
humano para averiguar quais regiões do DNA apresentavam receptores para a
vitamina. Receptores são uma espécie de fechadura química só aberta por chaves
compatíveis – nesse caso, a vitamina D , para liberar o acesso e a ação do
composto à estrutura à qual pertencem.
DOENÇA SOB CONTROLE
O jornalista Daniel Cunha, 27 anos, foi diagnosticado com esclerose múltipla em
Setembro de 2009. Começou a se tratar com as medicações tradicionais, mas depois
decidiu aderir a reposição da vitamina como forma de tratamento. Estou há dois anos com a doença sob controle”, conta. Com as vitaminas, Daniel gasta R$ 50,00 mensais. Já os remédios lhe custavam R$ 4 mil, pagos pelo SUS.
O time de Oxford descobriu nada menos do que 2.776 pontos de ligação com
receptores de vitamina D ao longo do genoma. “A pesquisa mostra de forma
dramática a ampla influência que ela exerce sobre nossa saúde”, concluiu
Andreas Heger, um dos coordenadores do trabalho, publicado pela revista “Genome
Research”. Isso quer dizer que sua presença faz uma bela diferença na forma
como trabalham os genes. “Todas as células mapeadas possuem receptores diretos
da vitamina”, explica o dermatologista Danilo Finamor, da Universidade Federal
de São Paulo (Unifesp).
A outra comprovação inquestionável do poder abrangente da vitamina no
corpo humano veio de uma ampla revisão de trabalhos científicos realizada pela
Sociedade Americana de Endocrinologia cujo resultado foi divulgado há dois
meses. “Ela age no coração, no cérebro e nos mecanismos de proliferação e
inibição de células, entre outros sistemas”, disse à ISTOÉ o bioquímico Anthony
Norman, professor da Universidade da Califórnia (EUA), um dos maiores
estudiosos do tema e integrante do comitê responsável pela compilação de dados
a respeito do assunto. “A vitamina D também atua nos músculos, que são as
únicas estruturas capazes de dar mais estabilidade aos ossos”, diz o
ortopedista André Pedrinelli, do Hospital Santa Catarina, de São Paulo.
MAIS DISPOSIÇÃO A analista de seguro social Anna Paula
Corrêa, 34 anos trouxe a filha Ana Laura, 11 anos, de Cuiabá, Mato Grosso do
Sul , à São Paulo para fazer exames médicos. Ela descobriu que a menina
apresentava um déficit da vitamina. Após a suplementação, a garota está mais
disposta, não perde mais cabelo e tem as unhas fortes.
Muito do que se sabe a respeito dos novos
benefícios da substância é referente à diabetes tipo 2, que hoje exibe
proporções epidêmicas no mundo. Trabalhos demonstram que níveis baixos da
substância estão relacionados a uma disfunção ligada à origem da doença chamada
resistência à insulina. A insulina é o hormônio que permite a entrada, nas
células, da glicose circulante no sangue. No caso da diabetes tipo 2, ela não
consegue cumprir sua função corretamente e o resultado é o acúmulo de glicose
na circulação sanguínea, o que caracteriza a enfermidade.
Uma das pesquisas a evidenciar a relação vitamina D-diabetes tipo 2 foi
feita pelo cientista Micah Olson, da Universidade do Texas (EUA). Ele mediu os
níveis da vitamina, de glicose e de insulina no sangue de 411 crianças obesas e
87 não obesas. “As obesas com níveis mais baixos do composto tinham maior grau
de resistência à insulina”, disse. Em adultos, dá-se o mesmo. No mês passado,
estudo publicado na revista “Diabetes Care” mostrou que pessoas com pequena
quantidade da substância apresentavam 32 vezes mais resistência à insulina do
que a média dos voluntários avaliados.
DE BEM COM A BALANÇA
Há dois anos, o empresário Armindo Arede,
de São Paulo, resolveu combater o excesso de peso e evitar males relacionados,
como a hipertensão.
Exames posteriores indicaram também a carência de vitamina D. “Senti que comecei a perder peso mais rápido quando iniciei a reposição", diz ele, que emagreceu 16 quilos.
A informação do papel da vitamina no desenvolvimento da enfermidade
mudou a conduta médica. A endocrinologista Maria Fernanda Barca, de São Paulo,
membro da Sociedade Americana de Endocrinologia, por exemplo, é uma das que já
indicam sua reposição, se for preciso. “Quando comecei a pedir dosagens, vi que
cerca de 70% dos pacientes estavam com carência ou insuficiência da
substância”, diz.
Também já existe um consenso científico de que, quanto mais obesa a pessoa,
menos vitamina D ela apresenta. Não está claro, porém, se a obesidade por si só
diminui a presença da vitamina no organismo ou se é o contrário. Mas, mesmo sem
conhecer os mecanismos pelos quais a baixa concentração da substância contribui
para o acúmulo de gordura, os médicos estão incluindo sua reposição na lista de
estratégias mais recentes na briga contra a balança.
Só por ajudar no controle da diabetes e da obesidade – dois fatores de
risco para doenças cardíacas –, a vitamina já poderia ser chamada de aliada do
coração. No entanto, descobriu-se que ela combate também a hipertensão,
bloqueando a ação de uma enzima envolvida na elevação da pressão arterial. “Por
isso, pode ser dada como coadjuvante no tratamento da doença, se for comprovado
seu déficit”, afirma Aluízio Carvalho, professor de nefrologia da Unifesp.

SOL DESDE CEDO A biomedica paulistana Analise Fogo Solon,
31 anos, recebeu orientações do pediatra para que seu filho Bruno, de 9 meses,
tome sol todos os dias. O médico disse que era necessário para a absorção de vitamin
D. “Desde um mês, ela o leva para o playground do prédio onde mora. Fico 15
minutos, levando a camisetinha . Não passo filtro solar".
O sistema imunológico é outro beneficiado. “Ela atua como um modulador
do sistema de defesa do corpo”, explica a endocrinologista Cláudia Cozer, de
São Paulo, diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da
Síndrome Metabólica. A quantidade certa da vitamina permite que o corpo se
defenda melhor, por exemplo, das gripes e resfriados de repetição. “Uma das
células beneficiadas por ela são os linfócitos T, que agem sobre as células
estranhas e infectadas por vírus”, diz o bioquímico Anthony Norman, da
Universidade da Califórnia. Alguns pesquisadores sugerem que a substância pode
reduzir a mortalidade por pneumonia entre pacientes internados e ter ação
específica sobre o bacilo de Koch, o causador da tuberculose.
Até as complexas doenças autoimunes se revelam sensíveis à vitamina.
Essas enfermidades são desencadeadas por uma disfunção do sistema de defesa que
faz com que ele comece a atacar o próprio organismo. Se ataca proteínas
localizadas nas articulações, deflagra a artrite reumatoide. Se forem células
da pele, há vitiligo ou psoríase. Nesse campo, a substância também tem sido
vista como uma esperança, inclusive para pacientes de esclerose múltipla,
enfermidade autoimune que acomete células nervosas e leva à perda gradual dos
movimentos. Já se sabe que o seu avanço é mais rápido em quem convive com níveis
baixos da substância, conforme documentou um estudo da Universidade de Maastricht,
na Holanda, a partir do acompanhamento de 267 pessoas com a doença.
RECEITA
A médica Cláudia Cozer é uma das que indicam
a reposição da vitamina se for preciso
Na Unifesp, mais de 800 portadores de esclerose múltipla estão recebendo
doses do composto, sob responsabilidade do neurologista Cícero Galli Coimbra,
um entusiasta do tratamento. “São doentes com déficit comprovado e resistência
genética à vitamina”, explica o médico. “É uma terapia eficiente, que precisa
ser divulgada”, diz Coimbra, criador do Instituto de Autoimunidade, voltado a
esse tipo de tratamento.
Na mesma linha de intervenção segue a Universidade de Toronto, no
Canadá. Pacientes com a enfermidade lá tratados apresentaram uma notável
diminuição da perda de células nervosas. No entanto, o tratamento é considerado
complementar e tem opositores. A terapia convencional da doença é feita com o
medicamento interferon-beta, que modula o sistema imunológico.
TRATAMENTO
O neurologista Cícero Galli coordena pesquisa sobre
o efeito da vitamina no controle da esclerose múltipla
A pesquisa das ligações do composto com o câncer é um campo dos mais
desafiadores para os pesquisadores. Em junho, cientistas da Universidade da
Carolina do Norte (EUA) anunciaram que pacientes com tumor de pâncreas com
maior quantidade de receptores para a substância têm sobrevida maior do que os
outros. Antes, eles já tinham sido encontrados pelos cientistas britânicos em
áreas associadas à leucemia linfática crônica e câncer colorretal. Há também
suspeita de que a vitamina regule genes ligados aos tumores de próstata e
pesquisas mostrando doses deficientes em mulheres com câncer de mama. “Um
estudo mostrou que o aumento de sua quantidade poderia impedir aproximadamente
58 mil novos casos de tumor de mama e 49 mil novos casos de câncer colorretal a
cada ano”, disse à ISTOÉ a médica Archana Roy, da Clínica Mayo (EUA). “Mas
outros trabalhos são necessários para esclarecer e comprovar essas relações”,
pondera a endocrinologista Ana Hoff, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.
Embora seja chamada de vitamina, a substância é, na verdade, um
pró-hormônio. Ou seja, dá origem a vários hormônios importantes para o corpo. É
sintetizada a partir de uma fração do colesterol, transformada sob a ação dos
raios ultravioleta B do sol. Ela também está presente em alimentos –
principalmente peixes de água fria –, mas sua concentração neles é pequena e
seria suficiente para fornecer apenas 20% das necessidades diárias.
FALTA No consultório da
endocrinologista Maria Fernanda, 70% dos pacientes tinham quantidades insuficientes da substância
É por essa razão que hoje os especialistas encontram-se preocupados. Ao
mesmo tempo que fica cada vez mais clara sua importância para a saúde, o mundo
enfrenta uma espécie de epidemia de déficit da substância. Segundo a
Organização Mundial da Saúde, metade da população mundial tem menos vitamina D
do que precisa. De acordo com a OMS, há insuficiência quando o exame de sangue
indica uma concentração menor do que 30 ng/ml (nanogramas por mililitro de
sangue). Valores abaixo de 10 ng/ml são classificados como insuficiência grave.
Dosagens iguais ou superiores a 30 ng/ml estão na faixa da normalidade, cujo
limite máximo é 100 ng/ml.
A enorme deficiência se deve principalmente à pouca exposição ao sol que
as pessoas têm atualmente. Para que seja sintetizada na quantidade adequada,
recomenda-se a exposição de partes do corpo (braços e pernas, por exemplo)
entre 20 e 30 minutos ao sol diariamente, sem filtro solar. Ou, como orienta
outra corrente, expor 15% da superfície da pele (equivale a dois braços) pelo
menos três vezes por semana, com filtro solar. E, nesse caso, fazer
complementação com suplementos receitados a partir da necessidade individual de
cada um.

Essas são as orientações de forma geral. Isso porque as descobertas
recentes estão produzindo mudanças nas recomendações das concentrações ideais
de acordo com grupos específicos. No ano passado, por exemplo, os americanos
elevaram esses valores para a população da terceira idade. Seguindo a tendência
americana, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) decidiu aumentar as suas
indicações para crianças e adolescentes. “É importante lembrar que, para
crianças maiores, a suplementação só será necessária caso a criança não atinja
a quantidade de vitamina D recomendada apenas com alimentação e luz solar”, diz
Virginia Weffort, do Departamento de Nutrologia da SBP.
A cautela é realmente imprescindível. “Não se deve tomar vitamina D
indiscriminadamente”, adverte o endocrinologista Sharon Admoni, do Núcleo de
Obesidade e Transtornos Alimentares do Hospital Sírio-Libanês. Em dose
excessiva, ela causa enjoo, desidratação, prisão de ventre e pode aumentar a
quantidade de cálcio, elevando a pressão arterial. Pode também gerar pedras nos
rins. “O ideal é que quem faz suplementação seja bem monitorado pelo seu médico
e faça exames periódicos de sangue”, diz a médica Ana Hoff. Dessa maneira, só
haverá benefícios.
Artigo gentilmente cedido por Dra Maria Fernanda Barca - Endocrinologista
N° Edição:
2230 | 03.Ago.12 - 21:00 | Atualizado em 17.Ago.12 - 15:12 por Mônica Tarantino e Monique Oliveira